Em 2025, o Instituto Nacional do Seguro Social concedeu 4.126.112 benefícios por incapacidade temporária a trabalhadores que ficaram mais de 15 dias sem condições de exercer suas funções.
As doenças do sistema osteomuscular e do tecido conjuntivo lideraram a lista, à frente das lesões por causas externas e dos transtornos mentais, segundo balanço do Ministério da Previdência Social.
Dentro desse grupo está uma queixa que muita gente subestima até o dia em que não consegue mais subir uma escada sem dor: a tendinopatia. É a alteração do tendão, a estrutura resistente que liga o músculo ao osso. Quase sempre começa discreta, com um incômodo que vai e volta depois do esforço, antes de virar limitação.
O problema não é raro nem recente. A Organização Mundial da Saúde estima que cerca de 1% da população mundial convive com algum quadro de tendinite ao longo da vida.
No Brasil, parte desses casos só chega à perícia médica e ao afastamento depois de meses sem tratamento correto, quando a lesão já se firmou.
Tendinite e tendinopatia não são a mesma coisa
Muita gente usa a palavra tendinite para qualquer dor no tendão, mas o termo nem sempre descreve o que está acontecendo. Tendinite sugere inflamação, algo comum nas fases iniciais. Tendinopatia é o nome mais amplo, usado quando existe dor e mudança na estrutura do tendão por sobrecarga repetida, e não apenas inflamação.
A diferença não é só de vocabulário. Ela muda o tratamento. Quando o problema é desgaste por uso excessivo, repouso absoluto e anti-inflamatório resolvem pouco.
O tendão precisa de carga bem dosada e de fortalecimento progressivo para voltar a funcionar. Tratar o quadro como uma simples inflamação passageira é um dos motivos pelos quais a dor se arrasta por tanto tempo.
Por que tantos brasileiros desenvolvem o problema
Os tendões mais afetados são os que recebem muita carga e repetição. No ombro, o manguito rotador. No cotovelo, a epicondilite, conhecida como cotovelo de tenista. No joelho, o tendão patelar. No calcanhar, o tendão de Aquiles. O local muda detalhes do tratamento, mas a lógica é parecida: reduzir a irritação, recuperar a força e voltar às atividades com progressão.
A rotina de trabalho explica boa parte dos casos. Movimentos repetidos, postura inadequada e ausência de pausas estão na origem das lesões por esforço repetitivo, agrupadas pela Previdência Social sob a sigla LER/DORT.
O Ministério da Saúde mantém um protocolo específico sobre o tema desde 2012, e profissões como digitadores, costureiras, trabalhadores da limpeza, da construção civil e professores aparecem com frequência nos registros oficiais.
O trabalho remoto e o aumento do tempo diante de telas mudaram o perfil de quem procura o ortopedista. Cadeiras improvisadas, mesas na altura errada e jornadas longas sem intervalo elevaram as queixas de ombro e cotovelo nos últimos anos.
No outro extremo, o crescimento da corrida de rua e da musculação levou mais gente a sobrecarregar tendões de joelho e calcanhar sem orientação técnica. São dois públicos diferentes que chegam ao consultório com a mesma raiz: carga mal administrada.
O peso dos afastamentos
Os números da Previdência ajudam a dimensionar o impacto. Os três maiores capítulos da Classificação Internacional de Doenças responderam por 62,61% das concessões de incapacidade temporária em 2025, e o capítulo osteomuscular ficou em primeiro lugar, posição que já ocupava no ano anterior.
A tendência é de alta. Na série pública do Ministério da Previdência Social, os benefícios por incapacidade temporária atribuídos ao capítulo osteomuscular passaram de cerca de 512 mil em 2020 para perto de 1,04 milhão em 2025, mais que o dobro no intervalo. Parte dessa curva reflete justamente a mudança na rotina de trabalho e o adiamento de cuidados que marcaram o período.
O custo é alto. Pela série da AEPS 2024, o capítulo osteomuscular somou 843.165 auxílios-doença concedidos e cerca de R$ 1,5 bilhão pagos, o equivalente a perto de R$ 1.800 por concessão no momento da entrada do benefício.
Um estudo publicado nos Cadernos de Saúde Coletiva em 2025 analisou os benefícios acidentários por distúrbios osteomusculares e mostrou um recorte revelador: entre as mulheres, a lesão do ombro, classificada como CID M75, foi a queixa mais frequente, enquanto a dor nas costas predominou entre os homens.
A lesão do ombro citada nesse levantamento tem relação direta com a tendinopatia do manguito rotador, um dos quadros mais comuns no consultório ortopédico.
Ou seja, por trás de boa parte da estatística de afastamento está exatamente o tipo de problema que costuma ser ignorado nos primeiros meses, quando o tratamento seria mais simples.
Tendinopatia tem cura
A pergunta que mais aparece no consultório é se o problema tem cura. A resposta depende do estágio. Quando o paciente trata cedo, ajusta a carga sobre o tendão e segue uma reabilitação bem conduzida, a recuperação completa é comum: a dor passa, a força volta e a função se normaliza.
Em casos crônicos, que se arrastam por meses ou anos, o objetivo muda. A meta passa a ser recuperar a função e controlar a dor com estabilidade, reduzindo o risco de recaída, mesmo que algumas mudanças na estrutura do tendão demorem mais para regredir.
Para entender as chances reais de recuperação em cada situação, veja mais sobre tendinopatia em conteúdos produzidos por ortopedistas que acompanham esses casos de perto.
O que costuma atrapalhar é a demora. Como a dor inicial vai e volta, muita gente convive com o desconforto por meses antes de buscar avaliação.
“Quanto mais tarde o diagnóstico, mais longa tende a ser a recuperação, e maior a chance de o quadro evoluir para algo que limita o trabalho e a vida cotidiana”, alerta um ortopedista do COE, centro de ortopedia para dor e lesões em Goiânia.
Como funciona o tratamento
Não existe receita única. O tratamento é individual e quase sempre combina três pilares: orientação sobre a lesão, ajuste de carga e reabilitação progressiva.
A ideia não é parar tudo. O tendão responde mal tanto ao excesso quanto à ausência total de estímulo. O caminho costuma ser reduzir o que irrita a lesão, manter o corpo ativo de outra maneira e introduzir, de modo planejado, exercícios de fortalecimento. Programas com exercícios excêntricos e isométricos estão entre os mais usados, sempre com progressão controlada.
Recursos como ondas de choque, laser e técnicas manuais podem entrar como apoio, sobretudo quando a dor persiste, mas funcionam melhor dentro de um plano que inclui exercício e aumento gradual de carga.
Infiltrações aliviam no curto prazo em alguns casos, sem corrigir a causa, e por isso exigem critério na indicação. A cirurgia fica reservada para quem não melhora após meses de tratamento bem feito ou apresenta ruptura importante, e mesmo nesses casos a reabilitação posterior é parte essencial do resultado.
O que fazer para evitar o agravamento
A prevenção passa por gestão de carga e constância no fortalecimento. Aumentar treinos de forma gradual, fortalecer os músculos que dão suporte à articulação e não só o tendão dolorido, fazer pausas em tarefas repetitivas e ajustar a ergonomia do posto de trabalho reduzem o risco de recaída. Calçado e equipamento adequados para cada atividade também ajudam.
O sinal de alerta é a dor que não passa. Quando o desconforto no tendão persiste, piora com o tempo ou começa a atrapalhar tarefas simples do dia a dia, a recomendação é procurar avaliação com ortopedista e, se indicado, fisioterapeuta.
Tratada no momento certo, a tendinopatia raramente precisa chegar à perícia do INSS. O problema, na maioria das vezes, não é a falta de tratamento eficiente, e sim o tempo que se perde até começar.
